Primeiro episódio: A Revolta dos Malês
O Brasil Cultural desta semana vai falar sobre a maior rebelião de escravizados da história do país. Vamos à cidade de Salvador, na Bahia, em 1835, para conhecer a conjuntura social e política que deu início à Revolta dos Malês.
10/10/2025
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No papel, o Brasil era um país soberano desde 1822, quando deixou de ser colônia lusitana. O grito de “Independência ou morte”, diz a história oficial, abriu caminhos para pôr fim à possessão de 322 anos e entregar a Dom Pedro I o cetro de imperador.

O detalhe é que o poder nem sempre está nas mãos de quem ostenta as joias da coroa. Portugal teve o maior tesouro do Novo Mundo nas mãos, e não se industrializou a tempo de revolucionar a fabricação de bens de consumo por meio das máquinas que aceleravam o ritmo produtivo, antes restrito à habilidade artesã.

Em cerca de dois séculos de atividade extrativista, os interesses comerciais de Lisboa avançaram sobre a Mata Atlântica, erodiram o solo fértil do litoral nordestino com a monocultura açucareira, dilapidaram as jazidas de Ouro Preto (MG) e tornaram a metrópole dependente dos bens manufaturados da Inglaterra.

Visceralmente ligada aos ditames de além-mar, a nação “autônoma” – que surgira às margens do rio Ipiranga – passou a lidar com um déficit de milhares de libras esterlinas na balança comercial. O brado do então príncipe regente não comoveu os banqueiros britânicos. E quem deve muito paga ou fica sujeito à vontade do credor. No solo descolonizado, a majestade era ibérica. A direção, saxônica. As tarifas alfandegárias, também.

O pensamento vanguardista que lançou embarcações no azul imenso para encontrar o paraíso terreno, o jardim perdido segundo a crença salvacionista, ficou na mente dos marinheiros da Escola de Sagres. O trono português não soube fazer a transição do mercantilismo para a Era do Capital que se avizinhava. Apaixonou-se pelos ganhos mesquinhos, imediatos. Foi enredado por uma Corte frívola e nababesca. Perdeu a localização do sol da ciência que inspirou a construção das naus oceânicas para a aventura do Descobrimento.

A nação brasileira recebeu a carta de alforria sem o principal atributo da liberdade: o direito de se autodestinar, dizer para onde deseja ir. O país permanecia atado aos interesses exteriores, embora tivesse um povo nascente – índio, luso, africano – para nutrir e cuidar.

Na pátria que se formara entre o etnocídio das populações originárias e o tráfico negreiro, o comando de fora, eurocêntrico, ressoava nas elites locais. Quadro bem ilustrativo dessa subserviência pode ser constatado no maior entreposto de escravizados da história do Brasil: a cidade de Salvador (BA).

Nas primeiras décadas do século XIX, a província carregava todas as marcas de uma colônia: concentração de terras, predomínio da agricultura canavieira, inflação de alimentos, mendicância, fome, latifundiários poderosos e economia escravista.

Insurreições pequenas, tímidas, aconteceram no período, até o estopim da mais significativa de todas elas: em 25 da Lua de Ramadã de 1835.

Quer saber o que aconteceu? Conhecer detalhes do levante? Compreender o significado de certas palavras? Ouvir professores em entrevistas exclusivas?

Vem com o Brasil Cultural.

Você está convidado a ouvir o primeiro episódio sobre a Revolta dos Malês.

Ricardo Walter