No papel, o Brasil era um país soberano desde 1822, quando deixou de ser colônia lusitana. O grito de “Independência ou morte”, diz a história oficial, abriu caminhos para pôr fim à possessão de 322 anos e entregar a Dom Pedro I o cetro de imperador.
O detalhe é que o poder nem sempre está nas mãos de quem ostenta as joias da coroa. Portugal teve o maior tesouro do Novo Mundo nas mãos, e não se industrializou a tempo de revolucionar a fabricação de bens de consumo por meio das máquinas que aceleravam o ritmo produtivo, antes restrito à habilidade artesã.
Em cerca de dois séculos de atividade extrativista, os interesses comerciais de Lisboa avançaram sobre a Mata Atlântica, erodiram o solo fértil do litoral nordestino com a monocultura açucareira, dilapidaram as jazidas de Ouro Preto (MG) e tornaram a metrópole dependente dos bens manufaturados da Inglaterra.
Visceralmente ligada aos ditames de além-mar, a nação “autônoma” – que surgira às margens do rio Ipiranga – passou a lidar com um déficit de milhares de libras esterlinas na balança comercial. O brado do então príncipe regente não comoveu os banqueiros britânicos. E quem deve muito paga ou fica sujeito à vontade do credor. No solo descolonizado, a majestade era ibérica. A direção, saxônica. As tarifas alfandegárias, também.
O pensamento vanguardista que lançou embarcações no azul imenso para encontrar o paraíso terreno, o jardim perdido segundo a crença salvacionista, ficou na mente dos marinheiros da Escola de Sagres. O trono português não soube fazer a transição do mercantilismo para a Era do Capital que se avizinhava. Apaixonou-se pelos ganhos mesquinhos, imediatos. Foi enredado por uma Corte frívola e nababesca. Perdeu a localização do sol da ciência que inspirou a construção das naus oceânicas para a aventura do Descobrimento.
A nação brasileira recebeu a carta de alforria sem o principal atributo da liberdade: o direito de se autodestinar, dizer para onde deseja ir. O país permanecia atado aos interesses exteriores, embora tivesse um povo nascente – índio, luso, africano – para nutrir e cuidar.
Na pátria que se formara entre o etnocídio das populações originárias e o tráfico negreiro, o comando de fora, eurocêntrico, ressoava nas elites locais. Quadro bem ilustrativo dessa subserviência pode ser constatado no maior entreposto de escravizados da história do Brasil: a cidade de Salvador (BA).
Nas primeiras décadas do século XIX, a província carregava todas as marcas de uma colônia: concentração de terras, predomínio da agricultura canavieira, inflação de alimentos, mendicância, fome, latifundiários poderosos e economia escravista.
Insurreições pequenas, tímidas, aconteceram no período, até o estopim da mais significativa de todas elas: em 25 da Lua de Ramadã de 1835.
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Ricardo Walter