Menino diferente, o tal Graciliano. A criançada corria no agreste, e ele buscava a sombra das árvores, com livros nas mãos. Mergulhava nos textos. Lia muito. Um título depois do outro. Engana-se, porém, quem o imagina folheando páginas da literatura infantil. O garoto frequentava biblioteca de gente grande. Saía do recinto com Balzac, Zola e José de Alencar. Gostava de conhecer as palavras. Tinha apreço por dicionários. Reverência à língua portuguesa e às irmãs de latinidade. Conhecia renomados autores italianos e franceses em seus idiomas pátrios. E, quando quis ler Dostoiévski e Tolstói, não pensou duas vezes: tratou de aprender russo.
Um prodígio! Daqueles que devem ser vistos como exceção à regra. Escola boa não teve. Nem poderia. Que cidadezinha do Brasil iria se preocupar com educação no final do século XIX? Isso mesmo. Foi dessa época “remota” que veio Graciliano Ramos, há 133 primaveras. No dia 27 de outubro de 1892, nascia, em Quebrangulo (AL), o prosador de escrita fluida, elegante e precisa.
Autor tardio, o nordestino teve o primeiro romance publicado em 1933. Era “Caetés”. Já estava ali o regionalismo, as impressões — marcadas a sol — que o semiárido deixou na alma do escritor. Sociedade, linguagem, cenário, costumes e psicologia saltavam da obra.
O enredo ainda se abre. Acende como tela. E conduz o leitor — mesmo que ele esteja sob os rigores do inverno — à paisagem seca, pedregosa e quente. O literato sabia fazer tramas. Ilustrar com a caligrafia artística que notabilizou os textos originais. Entregar imagens vivas por meio de diálogos e descrições concisas. Se há autores que prolongam os períodos, o alagoano reduzia-os. Tinha o dom de ser breve. Dizer muito numa nesga de papel...
...E, ao contar o que via, narrou as agruras do sertão. Fez crítica social. Construiu personagens verossímeis. Deu-lhes, assim como faz o mundo real, a sede, a fome, o corpo tísico e os andrajos. Se Victor Hugo reproduziu “Os Miseráveis”, de Paris, por que o Velho Graça não podia contar à porção letrada do Brasil as aflições do povo?
Em 1936, ato contínuo ao levante comunista do ano anterior, Getúlio Vargas começou a perseguir os adversários políticos que conspiraram e agiram para derrubá-lo da cadeira presidencial. Pagou a conta até quem estava muito distante da então capital federal, o Rio de Janeiro. Sem qualquer vínculo partidário, Graciliano foi preso em Maceió (AL). Bastidores oficiais deram conta do motivo: ideias subversivas. Seriam 11 meses de agonia.
Pausa.
Quer ficar por dentro do que aconteceu?
Ouvir especialistas na obra do autor?
Conhecer o Brasil de ontem e, de repente, descobrir que ele ainda existe?
É só dar o play para ouvir o primeiro episódio de Graciliano Ramos: o prosador do agreste.
Ricardo Walter