Em 2024, a renda domiciliar per capita no Brasil chegou a R$ 2.020. Além de representar um recorde histórico, a cifra aponta uma alta de 4,7% na comparação com o ano anterior. Os dados são oriundos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) e foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Nesse contexto, se uma família for composta por pai, mãe e dois filhos menores de idade, significa que o orçamento doméstico é de R$ 8.080. Com esse dinheiro, os responsáveis pelas finanças devem suprir todas as necessidades do lar, inclusive a educação das crianças. Caso os pais desejem colocar os filhos em uma escola particular que custe R$ 1.000 por pessoa, o investimento representará quase 25% da renda familiar. E esse custo tende a aumentar a cada série, em uma escalada que só termina no último ano do ensino médio. Para fugir do aperto financeiro, os pais geralmente buscam os aparatos do Estado.
O cenário hipotético, mas factível, descrito acima, ainda é uma espécie de eldorado. Um estudo inédito da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV) revelou, em 2024, que 10 milhões de crianças na primeira infância vivem em famílias de baixa renda, isto é, com renda mensal per capita de até meio salário-mínimo. Esse contingente representa 55,4% das 18,1 milhões de crianças de 0 a 6 anos registradas no país (Censo 2022). A pesquisa é resultado de uma parceria entre a instituição e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Em 2025, os professores da rede pública do Distrito Federal deram início a uma greve que durou 23 dias. Os docentes reivindicavam reajuste salarial, reestruturação da carreira e nomeação de aprovados em concurso público. No ano ainda em curso, Salvador, Belo Horizonte, Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco e Paraíba também tiveram greves no âmbito da educação básica. Como consequência, crianças e adolescentes ficaram sem aulas.
De acordo com o Censo Escolar 2024, cerca de 23% das matrículas na rede pública de educação básica no Brasil foram realizadas em escolas de tempo integral; ou seja, em 77% dos casos, a criança pobre vai estudar em colégios de turno, nos quais permanece de 4 a 5 horas por dia.
A realidade geral do povo contrasta com o panorama averiguado no topo da pirâmide socioeconômica. Em São Paulo, a cidade mais rica e populosa do país, há escolas como a Avenues e a Graded que chegam a cobrar mensalidades em torno de R$ 15.000. Esse valor é cerca de 750% maior que a renda per capita do brasileiro. Nesses lugares de exceção econômica, as matrículas beiram os R$ 31 mil. Na mesma metrópole, professores da rede municipal entraram em greve no último mês de maio.
Ainda hoje, os mais abastados têm acesso às melhores estruturas e aos mais sofisticados métodos de ensino. As elites querem seus filhos poliglotas, versados em literatura, arte e matemática. Reconhecem a importância do conhecimento, das novas tecnologias e do pensamento abstrato.
Mas, e o povão? Quem olhou para as massas que atravessaram o século XX famélicas e iletradas?
Em 1900, nasceu, em Caetité, no sertão da Bahia, um homem chamado Anísio Teixeira, que viu de perto o Brasil ulcerado pelas heranças da escravidão, ignorado pela República do Café com Leite e de mãos dadas com o fascismo nos primeiros anos da Era Vargas. Nesse tempo, quem se preocupava com o menor abandonado, dava importância à alfabetização, valorizava os professores e lutava pela construção de educandários com estruturas de primeiro mundo?
Anísio pensava em todas essas questões. E as extrapolava com sua vocação de estadista. Não se furtava em dizer que a escola pública é a única máquina capaz de gerar e sustentar as verdadeiras democracias. No parecer dele, essas instituições deveriam ser gratuitas, universais e laicas. O interesse maior da pátria. É importante grifar: tem-se aí uma visão de povo. O pedagogo não perdeu tempo com esgrimas teóricas que alimentam a vaidade dos acadêmicos. Anísio se entregou à construção, aos fazimentos e, por isso, colocou as mãos operosas a serviço do brilhantismo intelectual.
Na década de 40, o Censo Demográfico apontou que aproximadamente 62% da população brasileira com 10 anos ou mais era analfabeta. Em 1950, o educador fundou a Escola Parque em Salvador. Surgia uma nova proposta pedagógica que, se dependesse apenas do mestre, teria se espalhado por todos os estados da federação. A conquista, levada a sério, daria condições ao país de figurar na lista dos melhores sistemas de ensino do mundo, hoje localizados em países orientais, como Singapura, e nórdicos, com destaque para a Finlândia.
Não por acaso, o Brasil Cultural apresenta Anísio Teixeira, o revolucionário da educação. Este é o primeiro de três episódios
Ricardo Walter